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A maça no escuro

"Et l'un des moyens indirects de comprendre est de trouver beau."
(Le bâtisseur de ruines, trad. Violante Do Canto, p.417, Éd. Gallimard/L'Imaginaire n°424)

"[...] amuser les autres est une des façons les plus émouvantes d'exister [...] "
(Le bâtisseur de ruines, trad. Violante Do Canto, p.421, Éd. Gallimard/L'Imaginaire n°424)

"A maça no escuro" a été traduit par Violante Do Canto sous le titre "Le bâtisseur de ruines" publié chez Gallimard en 1970, coll. L'Imaginaire.

Où étais-tu pendant la nuit

"Elle était étrangère à la stratégie générale du monde et la sienne était réduite à sa plus simple expression. Elle avait renoncé aux grands objectifs. Elle était devenue son propre futur."
(Où étais-tu pendant la nuit ?, trad. G. Liebrich et N. Biro, p.33, Éd. des femmes, 1985)

"Au-delà de l'oreille existe un son, à l'extrémité du regard un aspect des choses, au bout des doigts un objet - c'est là que je vais."
(Où étais-tu pendant la nuit ?, trad. G. Liebrich et N. Biro, p.111, Éd. des femmes, 1985)

"Je ne suis pas une chose qui remercie de s'être transformée en une autre chose. Je suis une femme, je suis une personne, je suis une attention, je suis un corps qui regarde par la fenêtre. Tout comme la pluie n'est pas reconnaissante de ne pas être une pierre. Elle est une pluie. C'est peut-être cela qu'on pourrait appeler être vivant. Rien de plus que cela, mais cela : vivant. Et vivant d'une simple joie douce."
(Où étais-tu pendant la nuit ?, trad. G. Liebrich et N. Biro, p.151, Éd. des femmes, 1985)

Onde estivestes ontem à noite

Para além da orelha existe um som,
à extremidade do olhar um aspecto,
às pontas dos dedos um objeto
- é para lá que eu vou.

À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma idéia,
ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria,
à ponta da espada a magia - É PRA LÁ QUE EU VOU.

Au-delà de l'oreille existe un son,
à l'extrémité du regard un aspect
des choses, au bout des doigts un objet
- c'est là que je vais.

Submissão ao processo

O processo de viver é feito de erros - a maioria essenciais - de coragem e preguiça, desespero e esperança de vegetativa atenção, de sentimento constante (não pensamento) que não conduz a nada, não conduz nada,
e de repente aquilo que se pensou que era "nada" - era o próprio assustador contato com a tessitura do viver - e esse instante de reconhecimento (igual a uma revelação) precisa ser recebido com a maior inocência, com a inocência de que se é feito. O processo é difícil? Mas como chamar de difícil o modo extremamente caprichoso e natural como uma flor é feita.

"Submissão ao processo", crônica publicada em 20.01.73. In:"A descoberta do mundo"

A lucidez perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade
- essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

Eu sou eu, você é você







E eis que depois de uma tarde de "quem sou eu" e de acordar à uma hora da madrugada em desespero. Eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei.



Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação.


Simplesmente, eu sou eu, você é você. É livre, é vasto, vai durar.


Eu não sei muito bem o que vou fazer em seguida mas, por enquanto, olha pra mim, e me ama! Não! Tu olhas pra ti e te amas.


É o que está certo.





Recitado por Maria Bethânia


Água Viva (parte final)



Perfeição


Perfeição

O que me tranqüiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

Lecture à l’envers


Lecture à l’envers

Je ne t’aime plus,
Je mentirais si je disais que,
Je t’aime encore comme j’ai toujours voulu,
Je suis certain que
Rien a été vain
Profondément en moi, je sais que
Tu ne signifies rien.
Je ne pourrais jamais dire que
Je t’ai déjà oublié.
Et jamais je n’utiliserai la phrase
JE T’AIME.
Je suis désolé, mais il faut dire la vérité :
Il est trop tard.


Lecture à l’envers

Il est trop tard.
Je suis désolé, mais il faut dire la vérité :
JE T’AIME.
Et jamais je n’utiliserai la phrase
Je t’ai déjà oublié.
Je ne pourrais jamais dire que
Tu ne signifies rien.
Profondément en moi, je sais que
Rien a été vain.
Je suis certain que
Je t’aime encore comme j’ai toujours voulu,
Je mentirai si je disais que
Je ne t’aime plus.

Leitura de baixo para cima

Leitura de baixo para cima

Não te amo mais,
Estarei mentindo se disser que,
Ainda te amo como sempre quis,
Tenho certeza de que
Nada foi em vão
Sei dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer nunca que
Já te esqueci.
E jamais usarei a frase
EU TE AMO.
Sinto, mas tenho que dizer a verdade :
É tarde demais.


Leitura de baixo para cima

É tarde demais.
Sinto, mas tenho que dizer a verdade :
EU TE AMO.
E jamais usarei a frase
Já te esqueci.
Não poderia dizer nunca que
Você não significa nada.
Sei dentro de mim que
Nada foi em vão.
Tenho certeza de que
Ainda te amo como sempre quis
Estarei mentindo se disser que
Não te amo mais.

Direito ao grito



Porque há o direito ao grito. Então eu grito.

Uma imagem de prazer

Conheço em mim uma imagem muito boa, e cada vez que eu quero eu a tenho, e cada vez que ela vem ela aparece toda.
É a visão de uma floresta, e na floresta vejo a clareira verde, meio escura, rodeada de alturas, e no meio desse bom escuro estão muitas borboletas, um leão amarelo sentado, e eu sentada no chão tricotando.
As horas passam como muitos anos, e os anos se passam realmente, as borboletas cheias de grandes asas e o leão amarelo com manchas - mas as manchas são apenas para que se veja que ele é amarelo, pelas manchas se vê como ele seria se não fosse amarelo.
O bom dessa imagem é a penumbra, que não exige mais do que a capacidade de meus olhos e não ultrapassa minha visão. E ali estou eu, com borboleta, com leão. Minha clareira tem uns minérios, que são as cores.
Só existe uma ameaça: é saber com apreensão que fora dali estou perdida, porque nem sequer será floresta (a floresta eu conheço de antemão, por amor), será um campo vazio (e este eu conheço de antemão através do medo) - tão vazio que tanto me fará ir para um lado como para outro, um descampado tão sem tampa e sem cor de chão que nele eu nem sequer encontraria um bicho para mim. Ponho apreensão de lado, suspiro para me refazer e fico toda gostando de minha intimidade com o leão e as borboletas; nenhum de nós pensa, a gente só gosta.
Também eu não sou em preto e branco; sem que eu me veja, sei que para eles eu sou colorida, embora sem ultrapassar a capacidade de visão deles (nós não somos inquietantes). Sou com manchas azuis e verdes só para estas mostrarem que não sou azul nem verde - olha só o que eu não sou. A penumbra é de um verde escuro e úmido, eu sei que já disse isso mas repito por gosto de felicidade; quero a mesma coisa de novo e de novo. De modo que, como eu ia sentindo e dizendo, lá estamos. E estamos muito bem. Para falar a verdade, nunca estive tão bem. Por quê? Não quero saber por quê.

Cada um de nós está no seu lugar, eu me submeto bem ao meu lugar. Vou até repetir um pouco mais porque está ficando cada vez melhor: o leão amarelo e as borboletas caladas, eu sentada no chão tricotando, e nós assim cheios de gosto pela clareira verde. Nós somos contentes.

A paixão

Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos,
coubera arrancar de seu coração a flecha farpada.
De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura,
e para que eu nascera sem nojo da dor.

Para que te servem essas unhas longas?
Para te arranhar de morte
e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem.

Para que te serve essa cruel boca de fome?
Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor,
já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada.

Para que te servem essas mãos que ardem e prendem?
Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos
e olharam intimidados as próprias garras
antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir.



Porque


"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.
Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."


"...Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente."



"...Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda..."




"...É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele..."

Quanto ao mar

Quanto ao mar

"Quanto ao mar. O mar é impossível de se acre­ditar. Só o imaginando é que se chega a ver sua reali­dade. Só como sonho possível o mar existe. Mas o sem fundo do mar desabrocha em mim com espanto de espantalho."

AGUA VIVA (III)

« A vida oblíqua?
Bem sei que há um desencontro leve entre as coisas,
elas quase se chocam,
há desencontro entre os seres que se perdem uns
aos outros entre palavras que quase não dizem mais nada.
Mas quase que nos entendemos nesse leve desencontro,
nesse quase que é a unica forma de suportar a vida em cheio, pois um encontro brusco face a face com ela nos assustaria, espaventaria os seus delicados fios de teia de aranha.
Nos somos de soslaio para não comprometer o que pressentimos de infinitamente outro nessa vida de que te falo....
Mas conheço também outra vida ainda.
Conheço e quero-a e devoro-a truculentamente.
É uma vida de violência mágica. É misteriosa e enfeitiçante.
Nela as cobras se enlaçam enquanto as estrelas tremem.
Gotas de água pingam na obscuridade fosforescente da gruta.
Nesse escuro as flores se entrelaçam em jardim feérico e úmido.
E eu sou feiticeira dessa bacanal muda. »


AGUA VIVA (II)

Et voilà cette toile, auparavant vierge, maintenant couverte de couleurs mûres. Des mouches bleues scintillent devant ma fenêtre ouverte à l’air de la rue engourdie. Le jour semble la peu lisse d’un fruit que, petite catastrophe, les dents rompent, son jus s’écoule. J’ai peur du dimanche maudit que me liquéfie...... Por me refaire et te refaire....

Pour me refaire et te refaire je reviens à mon état de jardin et ombre, fraîche réalité, j'existe à peine et si j'existe c'est avec un délicat souci. Autour de l'ombre il fait chaud de suée abondante. Je suis vivante. Mais je sens que je n'ai pas encore atteint mes limites, frontières avec quoi ? sans frontières, l'aventure de la liberté dangereuse. Mais je prends des risque, je vis en prenant des risques. Je suis pleine d'acacias balançants jaunes, et moi qui ai à peine commencé ma journée, je la commence avec un sens de tragédie, devinant vers quel océan perdu vont mes pas de vie. Et follement je m'empare des recoins de moi, mes égarements me suffoquent de tant de beauté. Je suis avant, je suis presque, je suis jamais. Et tout cela je l'ai gagné en cessant de t'aimer.

AGUA VIVA (I)

Ecoute : je te laisse être, laisse-moi être alors.
Mais éternellement est un mot très dur : il a un t granitique au milieu. Eternité : car tout ce qui est n’a jamais commencé. Ma petite tête si limitée éclate à penser à quelque chose qui ni commence ni finit – parce qu’ainsi est l’éternel. Heureusement ce sentiment dure peu parce que je ne supporte pas qu’il demeure et s’il demeurait, il mènerait à l’égarement. Mais la tête éclate aussi a imaginer le contraire : quelque chose qui eût commencé – car ou commencerait-elle ? Et qui finirait – mas qu’est-ce qui viendrait après avoir fini ? Comme tu vois, il m’est impossible d’approfondir et de prendre possession de la vie, elle est aérienne, elle est mon haleine légère. Mais je sais bien ce que je veux ici : je veux l’inconclu. Je veux le profond désordre organique qui donne pourtant à pressentir un ordre sous-jacent. La grande puissance de la potentialité.

Escuta : eu te deixo ser, deixa-me ser então. Mas eternamente é palavra muito dura: tem um 't' granitico no meio. Eternidade: pois tudo o que é nunca começou. Minha pequena cabeça tão limitada estala ao pensar em alguma coisa que não começa e não termina - porque assim é o eterno. Felizmente esse sentimento dura pouco porque eu não aguento que demore e se permanecesse levaria ao desvario. Mas a cabeça também estala ao imaginar o contrario: alguma coisa que tivesse começado - pois onde começaria? E que terminasse - mas o que viria depois de terminar? como vês é-me impossivel aprofundar ou apossar-me da vida, ela é aérea, é o meu leve halito. Mas bem sei o que quero aqui: quero o inconcluso. Quero a profunda desordem orgânica que no entanto da a pressentir uma ordem subjacente. A grande potência da potencialidade.